Freira

Conto de terror: Dia de sopa

Contos

As noites frias na pequena cidade de Santa Quitéria, castigavam homem e bicho. Eram mais duras ainda  com aqueles que não tinham abrigo. Era só a noite cair que as pobres almas se recolhiam em cantos com seus cobertores velhos e camas improvidas, ficavam em grupos em busca de calor uns nos outros para passar sobreviver mais uma noite.

Mas vez ou outra um som cortava o silencio da noite. Era o som já conhecido da velha kombi, trazendo as Freiras e noviças, do convento Sagrado coração de maria nos arredores da cidade. Chamadas de anjos da madrugada levaram roupas quentes, colchonetes, cobertores e o mais aguardado “A sopa’.

Tal iguaria era apreciada com muito gosto pelos indigentes que ali estavam. A sopa era deliciosa e encorpada, trazia legumes, macarrão e carne de primeira. Duas panelas cheias não eram suficientes para extensa fila que se formava.

A instituição ainda tinham um trabalho de reabilitação para sociedade. Buscavam nas ruas quem quisesse sair daquela vida e ajudavam como podiam. Esta noite Escolheram Vicente, que estava a três anos em situação de rus. O catador de recicláveis mal podia se aguentar de felicidade, só de se imaginar reintegrado a sociedade, com um emprego,  uma família e fora das ruas já se sentia o homem mais sortudo do mundo.

Ao chegar na chácara, que abrigava  a irmandade, Vicente acomodou-se no quarto designado Pela madre. Tomou banho, tirou a barba arrumou os cabelos. Se sentia um homem renovado. As gentis senhoras ainda lhe levaram leite morno para que dormisse relaxado,  o que não demorou a acontecer.

Ao acordar com um frio lhe percorrendo o corpo nu,  em um cubículo que se assemelhava a uma jaula e em um local escuro e úmido,  não era o que Vicente esperava depois do paraíso da noite passada. Beliscava os braços, gritava por socorro,  queria acreditar que tudo ali era um confuso e terrível pesadelo. Gritos vinham de não muito longe, gritos de dor e horror.

As luzes se acendem e a freira mais velha se aproxima de sua jaula.

– Que bom que acordou! Já estamos nos preparativos, logo viremos buscá-lo.  Hoje é um dia especial.

Falou a mulher ignorando seu estado e seu pedido por explicações. As luzes se apagam e ele fica perdido em confusão e medo.

Minutos passam,  ou horas, ele havia perdido a noção do tempo devido ao choque da situação e por ainda estar meio dopado. As luzes se acendem e um carrinho guiado por duas mulheres grandes e fortes.

Outro copo de leite e entregue.  Vicente se recusa a beber.

– Por favor, beba e tudo terminará bem.

Apesar de sua posição ser desfavorável ele não iria acreditar em quem lhe enganou duas vezes. Fingiu estar passando mal, disse-lhes que não conseguia segurar o copo. No momento em que a jaula foi aberta ele empurrou uma das mulheres e correu, juntando todas as forças e esperanças de ser livre novamente. Uma pancada acerta sua cabeça, ele cai instantaneamente desacordado

Sentiu quando o pegaram é colocaram na mesa fria e amarraram seus braços, sentiu os solavancos que o carrinho dava.  Ouviu ao longe o coro de vozes femininas.

– Querido senhor!  Abençoe o sacrifício dado a ti, derrama bênção sobre tuas obedientes servas e sobre este lugar,  grandioso magnífico. Limpando o mundo de pragas e desordem pelo teu nome.

Cortando a artéria de vicente, o sangue escorre ate uma bacia. Um coral de vozes femininas entoavam os dizeres:

“O corpo, Receptáculo. O sangue, força. A vida,  eternidade. O que é compartilhado sempre vive”

Ao fim da cerimônia o desmembramento começa. Partes vão ao congelador, partes vão para panela.  Retiram a pele e temperam os pedaços com sangue e especiarias.

Amanha e dia de sopa.