Já se passavam quatro meses de gestação, e Andréia estava tão feliz que nem se importava que seria mãe solteira, afinal, toda a sua família iria ajudá-la. Ela tirava fotos da sua barriga a cada mês que se passava. Seu sonho sempre foi ser mãe, apesar de ter apenas 17 anos, mas toda adolescente se apaixona perdidamente não é?!
Sua avó era a única que parecia não gostar disso, talvez pelos velhos costumes de que as moças deveriam se casar primeiro e depois ter os filhos, ou talvez pela doença de Alzheimer. Mas Andréia não deixava isso ser problema, continuava mais feliz do que nunca.
Certo dia, ela voltava para casa e encontrou um sapatinho de nenê jogado na calçada, apenas um, era com lãs azul e branco, um pequeno lacinho na frente, achou que aquilo fosse um sinal de que era um menino e que Deus aprovava sua atitude de não abortar, e guardou o sapatinho na sua bolsa. Quando chegou em casa ela foi tomar seu banho, e ao sair do banheiro encontrou a bolsa aberta e do lado sua avó rasgando todo o sapatinho, viu uma certa raiva nos olhos dela. Andréia não ligou muito, pois sua avó era doente, mas mesmo assim ela ficou com pena do sapatinho e guardou os pedaços, agora estava num lugar bem escondido.
O tempo passou tão rápido, já eram quase nove meses de gestação. E finalmente, ela fez sua sonhada festinha de chá de bebê, tudo estava lindo com bexigas azuis, assim como ela imaginava antes, seria mesmo um menino. Todos estavam alegres e sorridentes, suas primas, suas amigas, colegas da sua mãe, e seu pai também estava lá. Ele era o mais orgulhoso, estava todo ansioso, pois sua esposa nunca pôde ter mais filhos depois da chegada de Andréia, ela era filha única, e ele sempre quis um homenzinho. A festa estava normal, mas de repente sua avó se levantou da cadeira, olhou fixamente para Andréia e disse:
_ “Você não vai ter este filho!” _ então, ela pegou um pedaço de bolo e esfregou com fúria na barriga de Andréia.
Seus pais levaram a avó para o quarto, mas todos estavam assustados, mesmo sabendo da doença. Andréia achou melhor acabar com a festa, afinal, já tinham feito todas as brincadeiras e alguns convidados já tinham ido embora.
Naquela noite, Andréia não conseguia dormir, ficou pensando no ocorrido. Olhou para o relógio em cima do criado-mudo e marcava 2:13 da madrugada. Ela foi ler um livro, e acabou dormindo. Começou a ter pesadelos, choros de bebês, mas ela não via nenhum, saiu procurando pela rua, andando descalça a noite, estava tão frio, choros, e choros… “Cadê meu bebê?” _ela acordou com seu próprio grito, estava suando, e percebeu que os lençóis estavam meio úmidos, gritou chamando seus pais. Sua mãe acendeu a luz, e Andréia se assustou mais ainda com os lençóis cheios de sangue. Seu pai e sua mãe pegaram-na e colocaram no carro, deixaram a sua avó com a prima que estava na casa. Andréia chorava e reclamava de dor, e sua mãe tentava acalmá-la no banco traseiro do carro:
_ “Fique calma filha, estamos quase chegando ao hospital, tudo vai dar certo, você vai ver!”
Seu pai teve que parar no sinal vermelho, e no mesmo instante que sua mãe dizia aquelas palavras, Andréia viu sua avó na calçada da rua, parada e sorrindo, mas quando ela disse a sua mãe que olhasse não tinha mais nada. O sinal ficou verde, e quando seu pai estava na encruzilhada veio um caminhão e bateu no carro de Andréia, ela então desmaiou.
Abriu os olhos e estava na cama do hospital, sua mãe cochilando na cadeira ao seu lado, e seu pai chorando ao seus pés.
_ “Pai, o que… o que aconteceu?”
_ “Fique calma filha, tudo está bem!”
Andréia colocou a mão em sua barriga e começou a chorar desesperada quando sentiu que seu bebê não estava ali.
_ “O que houve com meu bebê? Cadê ele pai, cadê?”
Seu pai tentou acalmá-la, sua mãe a abraçou chorando, e então Andréia já tinha entendido tudo, não havia mais nenhum bebê.
Foi então que ela lembrou de sua avó, e logo perguntou por ela. Sua mãe não aguentou e se retirou do quarto, e seu pai disse:
_ “Minha filha, na mesma madrugada do acidente, a sua avó faleceu, ainda não sabemos como, mas sua prima a encontrou na cama dela, sem sinais de vida. Você dormiu por 3 dias aqui, o velório dela já aconteceu, enterramos junto com o seu bebê. Ninguém sabe o que causou a morte dela, tudo foi tão rápido. Mas ao menos você está viva, nós estamos bem… nós vamos ficar bem!”
Andréia voltou para casa, ainda com os ferimentos, mas estava fora de perigo. Deitada na sua cama, não parava de chorar. Tudo parecia um pesadelo e ela só queria acordar. Sua mãe também chorava no quarto ao lado, a casa estava com má energia, tanta desgraça em tão pouco tempo.
Mas os meses foram se passando, a vida continuava, Andréia agora focava nos seus estudos, mesmo ainda abalada com a morte do seu bebê. Ela chegou em casa e tomou seu banho morno, ao sair do boxe olhou direto para o espelho embaçado, mas havia marcas de duas mãozinhas pequenas, como se um bebê tivesse tocado ali. Ela não aguentou e apagou aquilo, achou ser coisa da sua cabeça. Quando entrou em seu quarto, viu em cima do seu travesseiro, um sapatinho de bebê, azul e branco, igualzinho aquele que um dia encontrou e a sua avó havia rasgado depois. Ela lembrou de onde havia escondido o outro, pegou a caixinha e abriu, mas para sua surpresa, o sapatinho não estava mais rasgado, estava apenas empoeirado. O que significava aquilo? Porque ela tinha esse par de sapatinho agora que não tinha mais nenhum bebê? Todas as coisas que ela havia comprado e ganhado de presente para a chegada do bebê, ela vendeu tudo, ela não queria mais lembrar nada de neném. Com raiva e chorando, perguntou a mãe dela quem colocou sapatinhos de bebê no quarto, e a mãe não soube responder, ficou assustada. Andréia pegou os sapatinhos e queimou no quintal. No dia seguinte, ela acordou ouvindo choro de bebê, e parecia vir do seu guarda roupa, abriu as portas e lá estavam novamente os sapatinhos. Sem entender, ela resolve guardá-los, já que queimar não adiantou de nada.
Por anos ela guardou os sapatinhos, mas esqueceu. Casou-se com um bom rapaz, teve duas filhas, sua vida parecia ao normal. Conseguiu sua tão sonhada casa própria. Mas em uma certa noite, ela acordou e algo chamava para fora de casa. Ela saiu descalça, estava apenas de camisola, a noite estava fria, mas estava calmo, nenhum carro na rua. Ela parecia em transe, olhou para o final da rua, e não acreditava no que via, de longe sua avó segurando a mão de um menino, ele parecia ter 7 anos, e a criança acenava lentamente e sorridente…


