SawneyBean

O Clã Bean – A Família Canibal

Bizarro

A alguns meses adquiri o livro Devorando o Vizinho: Uma História do Canibalismo, escrito por Daniel Diehl e Mark P.Donnelly. É um livro bastante interessante sobre a coprofagia, o ato do canibalismo através da cultura, historia e literatura humana.

Um capítulo em questão me chamou bastante atenção: a historia da família Bean. Que como toda família, tinha seus segredos e esqueletos dentro do armário (ou da caverna).

O Início

Sawney Bean nasceu no condado de East Lothian, aproximadamente quinze quilômetros da cidade de Edimburgo, Capital da Escócia, em algum momento entre 1385 e 1390. Batizado de Alexander, mesmo nome de seu pai, logo foi apelidado de Sawney, termo escocês para abrasado, devido sua cabeleira ruiva. Desde muito jovem, Sawney demonstrava que a vida de camponês não lhe era nada atrativa. Enquanto seus pais trabalhavam e cuidavam da propriedade e do pouco que tinham, o garoto vagabundeava pela vila e arrumava confusão na vizinhança e com a lei. Na adolescência ele conheceu uma jovem garota que acompanhava seus hábitos rebeldes, juntos eram o terror da vizinhança, praticando roubos e arruaças, até o ponto de seus pais o expulsarem de casa e, posteriormente, ser expulso da vila por seus habitantes, e a garota, apaixonada, teria ido com ele.

Infelizmente não há registros do nome da garota, mas acredita-se que eles tenham se casado.

Agora abandonados à própria sorte, seguiram pelo único caminho que conheciam e achavam o mais fácil: roubar. Mas logo ficaram conhecidos pelas autoridades. Certa vez, foram perseguidos pelo agente local do rei, então se viram obrigados a fugir. Durante a fuga, encontraram em Galloway, litoral sudoeste da Escócia, um lar perfeito para eles. Um local isolado, de difícil acesso e cheio de esconderijos naturais, onde as autoridades jamais os encontrariam.

Os crimes

Os Bean encontraram uma caverna localizada entre duas vilas, Lindalfoot e Bellantree. Situada sobre o pé de um penhasco, a caverna se estendia por quase dois quilômetros, era cheia de caminhos que levavam a camarás sem saída e tinha cômodos os quais davam um ótimo lugar para se abrigar e esconder os pertences roubados de viajantes. Estes, desavisados, acabavam por entrar no caminho do casal Bean.

Mas ao mesmo tempo que o lugar era uma dádiva para as atividades criminosas, também era um problema. O que fazer com os pertences e as vítimas ficou cada vez mais difícil. Matá-las não era o problema, mas eles não podiam ir até as vilas vizinhas vender seus pertences. Alguma hora as pessoas iriam suspeitar de dois forasteiros ou até mesmo reconhecer algum objeto de amigos e conhecidos. Chamar atenção era a última coisa que a dupla queria. Sawney relutou, porém, logo comunicou sua parceira ter achado a única alternativa para seus problemas de subsistência. Eles não precisariam mais ir até a cidade comercializar objetos roubados para comprar alimentos, as próprias vítimas de seus crimes forneceriam suprimentos para o casal.

Um ser-humano adulto tem cerca de trinta quilos de carne. Isso era mais do que suficiente para o sr e a sra Bean fossem alimentados. Em uma dia bom, Sawney levava para casa duas vitimas, isso abastecia a “dispensa” por algumas semanas. Porém, logo o problema seria a velocidade com que a carne apodrecia. Então, a senhora Bean descobriu uma maneira simples de conservar a carne, usando o sal que ficava depositado na cavidade das rochas, pelo fluxo das marés. Ela salgava e os deixava na salmoura, defumando como presuntos. Assim, na “baixa temporada”, a dupla ficava abastecida durante bastante tempo.

A comodidade fez com que os amantes tivessem que escolher modos de passar o tempo, e assim tiveram 14 filhos, que eram muito bem vindos para ajudar nas atividades, mas além deles o clã cresceu ainda mais. Longe do convívio em comunidades, os filhos de Sawney adquiriram hábitos de relacionamentos incestuosos, que renderam 18 netos e 14 netas. Todos criados no modo de vida eremita e canibal, aprendendo desde cedo que todos que não fizessem parte da família eram apenas fonte de alimentação.

O pouco de educação que as crianças recebiam era focada na arte da caça e estratégia de sobrevivência. Dessa forma, os ataques furtivos pareciam ter perícia militar, contando com membros espalhados pela floresta em pontos estratégicos para observar, e avisar, assim que algum viajante entrasse em seu território, para então atacá-lo.

Havia também algumas regras como:

  • Atacar comitivas apenas se estivessem em bandos, e nunca atacar mais de dois se estivessem a cavalo;
  • Quando chegasse a hora do ataque, os ferozes Bean saiam de seus esconderijos e atacavam sem dar chance as vitimas, cortando sua garganta e arrastando o corpo para a caverna o mais rápido possível;
  • Recolher todos os pertences e encobrir toda e qualquer evidência do acontecido.

O Fim dos Bean

Os desaparecimentos na região aumentavam assim como medo dos moradores locais. Os comércios e tabernas que dependiam dos viajantes começaram a fechar, e poucos se aventuravam a passar por Galloway. Quanto mais pessoas sumiam, mais queixas eram levadas às autoridades que serviam o rei, chegando a ser realizada uma investigação que culminou na prisão e condenação à forca de inocentes sem álibi, como donos de tabernas e andarilhos. Mas mesmo assim os desaparecimentos não acabavam. Porém um dia, a família Bean, cometeu seu primeiro e último erro.

Namorados voltavam pela estrada à cavalo, quando foram surpreendidos pelo clã dos Bean. A moça, que estava na parte de trás, fora puxada e rapidamente teve sua garganta cortada e o abdômen aberto, ali mesmo e com selvageria. Em meio a confusão, o homem empunhou sua espada e segurou forte as rédeas de seu cavalo, para evitar ser derrubado e ter o mesmo fim de sua amada. Apesar de feridos, mas ainda empenhados em levar a “presa” para casa, os canibais não viram um grupo se aproximando. Um grupo, com cerca de vinte pessoas, voltavam de uma feira quando foram testemunhas de terrível cena. O cadáver de uma moça cruelmente mutilada, rodeado por criaturas seminuas, cobertas de sangue e que pareciam se alimentar como feras de sua carne. Enquanto outras criaturas cercavam um jovem que lutava por sua vida.

A aproximação fez a horda fugir e o rapaz fora salvo e levado até a cidade mais próxima, onde contou aos magistrados seu terrível infortúnio, o qual foi ouvido com horror. Uma carta foi mandada ao rei da Escócia que se uniu a uma  frota de 400 homens ate as terras litorâneas de Galloway. A comitiva do Rei James I seguiu pelo penhasco com cães, os levando ate uma abertura pequena, quase coberta pela água do mar. Os cachorros latiam e mesmo descrente de que um homem poderia viver ali, James ordenou que um pequeno grupo investigasse o local quando a mare baixasse.

Ao entrarem na gruta, após um caminho alagado, foram encontrados cômodos. O cheiro de carne putrefata ficava cada vez mais forte. Ossos foram vistos, alguns já velhos, outros ainda com restos de carne presos. Em outros cômodos haviam roupas velhas rasgadas, espadas enferrujadas, dinheiro e bolsas. Parecia um matadouro. Mais a frente, criaturas selvagens se moviam no escuro, a família Bean finalmente foi descoberta, junto ao seu segredo.

Vinte e sete homens e vinte e uma mulheres foram retirados vivos da caverna e presos. Os ossos e carnes foram encaminhados para um enterro digno. Apesar de tudo, infelizmente, era impossível saber a quantidade exata das vítimas, visto que suas terríveis atividades duraram ao menos 25 anos.

A culpa era óbvia, e o Rei havia testemunhado, não havendo necessidade de julgamento. A sentença foi proferida no mesmo dia da chegada a Edimburgo. Os homens e mulheres foram levados ate Leith, hoje local conhecido como Cais de Leith. Os homens foram condenados a ter seus membros arrancados à machadadas e sangrarem até morrer. As mulheres foram queimadas como bruxas. Todas as condenações foram em locais públicos e acompanhada multidões de curiosos.

Há uma lenda que diz que Sawney, antes de morrer, teria proferido terríveis maldições a seus executores e posteriores decendentes.

Teria Sido Tudo uma Lenda?

Sem dúvida uma história curiosa, cheia de mistérios e fatos insólitos. Mas será que foi tudo real? Há quem jure que sim.

Mas diversos historiadores escoceses dizem que a historia de Sawney Bean e sua família canibal não passa de uma lenda, contada através dos seculos para assustar crianças, em volta de uma fogueira. Talvez tenha nascido devido ao número de desaparecimentos inexplicáveis, que por sua vez foram atribuídos a ladrões e animais selvagens.

Todavia, o que não se pode negar, é que casos de canibalismo realmente existem e são bem documentados através da historia. A capacidade humana de retomar sua selvageria, e deixar-se consumir pelo mal, nunca deve ser duvidada.

E você? Acredita que é real ou também acha que é apenas uma lenda? Por via das dúvidas, evitem andar sozinhos em florestas desconhecidas.